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13 de setembro de 2010

Martha Medeiros - Miss Imperfeita

"Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.


Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou, trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e- mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação! E, entre uma coisa e outra, leio livros. Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres...

Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.

É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias... Cinco dias! Tempo para uma massagem.. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto. Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir. Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal. Existir, a que será que se destina?

Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.


Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C. Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.

E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante."


(Martha Medeiros - Jornalista e escritora - (Texto publicado na revista do jornal "O Globo"))

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Decidi publicar este texto da Martha Medeiros, pois eu compartilho da mesma ideia...

No atual mundo no qual vivemos, as pessoas só pensam em consumir, em ter status, a seguir "regras da sociedade", que eu particularmente não entendo... As pequenas coisas, as coisas simples (aliás as melhores coisas da vida) são cafonas, fora de moda, motivo pra sentir vergonha...

Posso ser uma pessoa fora dos padrões (aliás, quem estabeleceu estes padrões???) pois, eu acho que vale muito mais o valor do "ser" do que o "ter", mas infelizmente somos pré-julgados, pré-condenados, pois não temos a roupa de marca, o carro do ano, não passamos as férias em lugares badalados, não saio todos os finais de semana e pior, "você não bebe e nem fuma??!!", tem "x" anos de idade e "ainda mora com os pais e não tem a casa própria?" Como pode não ter, não fazer, não gastar, não comprar...
São sempre os mesmos verbos, TER, FAZER, GASTAR, COMPRAR, PRECISAR, SAIR, AMAR, NAMORAR, CASAR...

Meu Deus, o que há com esse mundo?!

As pessoas usam descontroladamente estes verbos e não conhecem o real significado das palavras, a responsabilidade e o peso delas... Para estas pessoas "corretas, perante à sociedade" tudo é banalizado, tudo é futilidade, tudo é nada... Afinal a essência, o valor, o respeito do ser não existe mais... Infelizmente!!


(Lílian Neves)