VISITAS

4 de setembro de 2010

Segunda Chance



Só era possível sentir a solidão, dor, angústia, frio, medo... E tudo ficava cada vez mais escuro, ia-se aprofundando cada vez mais nesse abismo. Uma queda livre e única sensação era o medo, esperança já não existia mais.


Só era possível sentir o corpo em constante queda, ia cada vez mais para as profundezas, o vento era frio, gélido que cortava a pele da triste face, o coração dominado pela amargura, tristeza e solidão...

Tudo em sua volta ficava cada vez mais escuro e sombrio, não havia nenhum controle, apenas a queda para as profundezas, e era rápida e dolorosa - uma dor insuportável.

No entanto, por um único instante lembranças passaram rápidas pela mente... Uma mente totalmente atormentada, conturbada mas que teve segundos de lucidez. Uma criança, uma bela criança que sorria feliz, brincava de bambolê, virava estrela, corria com seus lindos animais de estimação, tinha vários amigos imaginários, e ela ia descobrindo cada pedacinho do mundo em que vivia, encantada com essa oportunidade. Sempre era afagada por um colo terno de amor, era seguro e caloroso, ao seu redor havia olhares e sorrisos encorajadores.

E então a mesma garotinha já estava maior, era bonita, continuava sorridente e sonhadora, agora amava dançar, cantar, pular e continuava a brincar... Pulava repentinamente nas costas do seu irmão mais velho para que ele a girasse fazendo com que ela se sentisse ao ar, voando livre, de braços abertos e olhos cerrados. No colo do seu irmão seu desejo era voar em um céu azul, de nuvens brancas e sentir o vento tocar seu rosto sorridente e angelical...

Agora, o que sentia era o vento de uma queda livre, porém, esta queda a levava para as profundezas, onde tudo era medonho e sombrio, o vento gélido cortava-lhe a face triste, enrugada, amargurada...

Nenhum sorriso nascera ali há tempos...

Foi então que brotaram algumas lágrimas em seus olhos e passaram pelas feridas abertas em sua face, fazendo com que doesse muito mais.

Por um breve instante, em uma última tentativa desesperada ela gritou, um grito vindo das profundezas do seu ser, um grito desesperado e dolorido... Ela clamou por socorro!

Nesse instante, sentiu que seu braço fora agarrado por alguém que a puxava para cima, para fora do abismo sombrio. O vento não era mais gélido, havia uma brisa refrescante, o sol brilhava forte, incapacitando-a de enxergar o seu salvador.

Quando ela foi colocada sob uma grama verde em campo aberto, longe do abismo do qual estivera, ela foi capaz de ver, ainda que com os olhos embaçados pela claridade do sol e das lágrimas de alívio que escorriam por seu rosto, ela pode ver olhos castanhos, um olhar forte, penetrante, profundamente confiáveis e que pareciam enxerga-lhe a alma, este homem também tinha longos cabelos e barbas castanhas.

Ele passou as mãos pela sua face, enxugou suas lágrimas e disse-lhe:

“Sei que agora compreenderás tudo, encontrarás o que realmente lhe pertence, caminharás e serás feliz. Sempre que quiser clame por mim e eu virei. Esta é a sua segunda chance”.

 
(Lílian Neves)